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Há Mar Portugal

António Peters

08/03/2022

Barra de Aveiro (imagem João Gonçalves)

O tema do Mar é sempre apaixonante.
Os Descobrimentos, datam de 1500.
Há que honrar o que herdámos.
São inesgotáveis e desafiantes as inúmeras aplicações que o Mar nos proporciona.
A “universidade” e os seus muito bem preparados alunos serão a mola impulsionadora.

Confesso que abordar o tema do Mar é-me sempre apaixonante, contudo ao fazê-lo sinto também o agridoce do seu sabor, pois andamos “há séculos” a tentar vender e alimentar a imagem que Portugal é um país de marinheiros, quando na realidade é um chavão fantasioso.

Sou um jovem já com décadas no corpo e com o sabor do sal nele enraizado e assim quero senti-lo por muito tempo, na esperança de que as águas do meu país sejam reconhecidas por quem de direito e não seja a forma falaciosa de eludir a juventude, que aprendeu nos bancos da escola, que os Descobrimentos são e serão o ADN do crescimento do país. Foram!

Retrospectiva

Os Descobrimentos, datam de 1500.

Após ter nascido ouvi os feitos náuticos relembrados na Exposição do Mundo Português, …já sem fraldas, nos anos 60, com o avivar do memorial ao navegador Infante D. Henrique senti o cheiro do reviver essa Era do passado histórico, através da revitalização dos marcantes símbolos arquitectónicos lisboetas, cirurgicamente plantados à beira Tejo, …mais tarde, nos primeiros anos da escola, assisti anualmente à bênção da invejável frota de pesca do bacalhau, depois, já bem mais tarde, 1983, houve a XVII Exposição Europeia de Arte Ciência e Cultura, julguei, na altura, ser a hora de relembrar à namorada que se piscava o olho, CEE, o revigorar do passado e dos Descobrimentos, …nem fumo, não se passou nada!

1998, …aí sim, Portugal estava nas bocas do mundo, a Expo’98 era apresentada ao Universo como pioneiro do bem se fazer ao Mar e capaz de o salvar, os pavilhões da exposição, tudo aquilo era o chamamento à preservação e exploração dos oceanos com sabedoria, respirava-se finalmente esperança e certeza de que o simbolismo nacional ficaria restabelecido de forma indelével do seu vínculo náutico. Recordam-se? Não o foi também!

Ah, afinal aguardava-se pelos 500 anos do facto, que melhor havia que a data redonda para se concretizar tal simbolismo? Portugal de mão dada com o país irmão por si descoberto, Brasil, optou por recriar o passado e enaltecer a glória, foram inúmeras as comemorações e alusões, …nunca vi o Tejo tão cheio de embarcações, do topo do mais belo monumento nacional digno do acontecimento – Torre de Belém -, ambos os Presidentes dos países em festa, deram o tiro de largada a uma regata com destino ao Brasil. Meses mais tarde percebi que por lá se perdeu a esperança da ambição nacional, …ou minha!

Estamos já a mais de vinte anos dessa data, entretanto outros acontecimentos ocorreram, ineficazes e de igual êxito apesar dos elevados custos significativos, lembro o último exemplo, 2021 Lisboa Capital Europeia do Desporto, o plano de águas Tejo, testemunho da herança dos Descobrimentos foi ignorado, desperdiçando-se mais uma vez a oportunidade de valorizar o cenário de eleição e fazer história, entretanto somos detentores da mais antiga armada mundial, Marinha Portuguesa, com 700 anos de história. Há que honrar o que herdámos.

Introspectiva

Portugal há mais de quatro anos que aguarda pelo sobre dimensionar a sua área de jurisdição marítima, atributo que lhe permite adquirir um potencial, que qualquer país interior gostaria de poder usufruir para uma maior valorização da sua economia. Esta capacidade valorativa é agora mais que nunca passível e inteligível no seu propósito, bastando-lhe para isso colocar mão ao leme nesse rumo. A “universidade”, o seu corpo docente e os seus muito bem preparados ex’s e actuais alunos serão a mola impulsionadora para o estimular e aprofundar os ensinamentos obtidos durante as últimas décadas de ensino superior em Portugal. A prova indesmentível dessa qualidade, verifica-se pela abertura de portas de países estrangeiros na aceitação de habilitada juventude de licenciados sem-abrigo profissional em casa, aproveitarem essa oportunidade para solucionarem as suas prementes necessidades sociais e económicas. Os formadores gastam em educação, os receptores usufruem e poupam!

Antes que seja tarde, está no Mar uma grande oportunidade de os fazer regressar.

É este somatório de acontecimentos e valores, que não podemos desperdiçar e que urge fazer renascer de forma inovadora num rumo a uma exploração eficaz de encontrar novas formas e aptidões para as imensuráveis mais-valias que os oceanos são capazes de proporcionar.

Apesar da evolução tecnológica que o mundo moderno tem acesso e que se desenvolve a uma velocidade impensável, estou em crer que ainda há um potencial e fonte de riqueza por descobrir no aproveitamento das massas de água existentes no Mar/oceano. São inesgotáveis e desafiantes as inúmeras aplicações que o Mar nos proporciona: no aproveitamento directo da sua vida marinha; na energia hidráulica por explorar; na facilidade de acesso nas auto-estradas de circulação de mercadorias, bens e turismo, não esquecendo as inúmeras actividades de carácter desportivo e lazer, modelo que o país recentemente, sem querer, descobriu para promoção de imagem, recordemos a badalada onda da Nazaré.

Claro, como diz o povo: “quem vai ao Mar avia-se em terra”. Nada mais verdadeiro, é em terra que se prepara o que se pretende do Mar, logo as infraestruturas logísticas para a sua complementaridade terão de existir o mais próximo do bem a explorar, como será o caso das inúmeras indústrias necessárias para a sustentação das actividades náuticas, lembro as relacionadas ao sector das pescas e indústrias complectivas, a construção naval e a panóplia de requisitos de reforço para uma náutica de qualidade de excelência, acrescida ainda com as necessárias actividades paralelas de suporte, todas elas geradoras de postos de trabalho e impulsionadoras de um melhor PIB.

Porque Portugal não se esgota só no seu Mar, não podemos por isso descorar a extensa costa marítima (continente 850 Km, Açores 667 km e Madeira 250 Km), toda ela um excelente anfiteatro para o Atlântico, abençoada por um clima invejável, proporcionando óptimas aptidões para o turismo terreste e náutico. Na náutica a prática desportiva é viável em toda a costa na modalidade de vela, outras há que têm a sua “praia”, o mergulho e observação da fauna marítima está em crescimento e é já uma das fontes de receitas de muitos locais nos Açores e Sul de Portugal.

Toda esta descrição de atributos de forma de exploração directa e indirecta do Mar em Portugal poderão e deverão ser equacionados numa optimização de criação de riqueza interna, com o inevitável aumento de indústrias, pesadas ou não, bem como as turísticas, todas elas angariadoras de receitas e de os bem-vindos aumentos de postos de trabalho.

São todas estas considerações que irão colocar Portugal na linha da frente, desde que haja vontade política de se fazerem ao Mar, não há que ter receio de molhar os pés, vamos trabalhar para que as futuras gerações se identifiquem com o que nos “impingiram” nos bancos da escola – “Portugal é um país de marinheiros”. O conhecimento, arte e engenho existem nas faculdades, a boa vontade é intrínseca do povo português, O Mar de Portugal existe, é uma realidade. O que falta?

Agora vou falar para dentro da nossa CMP-LNP, faço o desafio: é a Confraria o albergue das presentes “excelências” da erudição náutica nacional, todos foram e são sábios na matéria, comunguemos e façamos sobressair a nossa sabedoria, influenciando, participando e injungindo (com a honestidade que nos comprometemos com o Mar) os decisores a tomarem uma posição em abono da sobrevivência do nosso melhor potencial por desenvolver, não nos dispersemos na proliferação de instituições similares, somos a equipa capaz e que quer pugnar pelo Mar de Portugal sem protagonismos oportunistas, todos precisamos de todos, as gerações vindouras congratular-nos-ão.

Deixemos a nossa marca, aceitem o desafio, estimulem os neurónios e entrem a bordo.

É com esta esperança que nos agarramos ao leme para promover todo o vosso empenho neste desígnio interessado a bem do Mar de Portugal, para que na preconizada rede de oportunidades a malha seja adequada e abranja todas actividades náuticas, incitando um maior e melhor crescimento das acções da nossa actuação, para que o país cresça na medida da sua tradição icónica de “país de marinheiros”.

Todos são necessários a bordo, quer a remar para o mesmo lado, ou a aproveitar o vento de feição, para que o rumo vá de encontro às verdadeiras potencialidades que se aguardam.

Que assim aconteça.

Portugal agradece.

Nota: o autor não cumpre o novo acordo ortográfico

Autor: António Peters

Membro da Direção da Confraria Marítima