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A Macologia – os Moluscos e as suas Conchas
António Monteiro
08/09/2026

Em Novembro de 2025, tive o gosto em aceitar o convite da Confraria Marítima de Portugal – Liga Naval Portuguesa, para apresentar uma breve palestra sobre um assunto que me é caro há muitas décadas: os Moluscos e as suas conchas.
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Os Moluscos constituem o segundo maior filo do Reino Animal, em número de espécies, incluindo perto de 100.000 espécies vivas identificadas. Estas dividem-se em várias classes, sendo a mais numerosa a dos Gastrópodes, que engloba espécies marinhas, de água doce e terrestres (caracóis e lesmas). Muitas espécies marinhas não têm concha, ou têm apenas uma concha vestigial, o mesmo acontecendo com as lesmas. A seguir aos Gastrópodes, as classes mais importantes são as dos Bivalves e dos Cefalópodes.
Muitos Gastrópodes e Bivalves medem apenas alguns milímetros, mas certas espécies podem atingir dimensões muito maiores, sendo de destacar a Tridacna gigas (Linnaeus, 1758), que pode alcançar um metro e vinte de comprimento e 200 quilos de peso.
Os Moluscos incluem ainda classes como os Poliplacóforos, os Escafópodes, os Aplacóforos, os Monoplacóforos (conhecidos através de fósseis de há 375 milhões de anos e considerados extintos até se ter encontrado a primeira espécie viva, em 1952, na costa pacífica da Costa Rica, a 5.000 metros de profundidade).
Há ainda outras classes de Moluscos, mas menos conhecidas e com menor número de espécies.
De modo geral, os Moluscos têm um corpo mole e não segmentado, com simetria bilateral. Algumas das principais estruturas do seu plano anatómico são:
1. O pé muscular (transformado em tentáculos no caso dos Cefalópodes) e o manto (a epiderme dos Moluscos, que protege o corpo dos animais).
2. A concha, estrutura constituída essencialmente por carbonato de cálcio e segregada pelo manto.
3. Especialmente nos Gastrópodes, a rádula (estrutura raspadora constituída por filas de pequenos dentes quitinosos curvos, os quais cobrem uma estrutura muscular, que auxilia na alimentação). Os Bivalves não apresentam rádula, mas sim estruturas que filtram micropartículas de alimento da água e levam para a boca. Este grupo de moluscos é o único que possui esse hábito filtrador.
Quando falamos da rádula, convém destacar a família Conidae. As suas espécies são carnívoras, alimentando-se de vermes, outros Moluscos, ou pequenos peixes. Os tais dentes quitinosos separaram-se e aparecem como umas pequenas agulhas, ligadas a uma glândula de veneno, que injetam nas presas, paralisando-as. Algumas espécies podem ser perigosas para o Homem.
A partir do veneno dos Cones tem sido isolado um grupo de péptidos neurotóxicos, as conotoxinas. Estes compostos são atualmente investigados para uso farmacêutico, para uso do seu efeito de bloqueio da transmissão nervosa da dor.
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Desde sempre os seres humanos têm observado os Moluscos, utilizando-os para diversas finalidades.
Em primeiro lugar, há naturalmente que realçar a importância dos Moluscos na alimentação humana.
De notar, por exemplo, que os exércitos romanos consumiam caracóis, especialmente em épocas de escassez de carne, servindo como alimento de fácil acesso para soldados, navegadores e pessoas mais pobres.
Para além disso, a beleza das conchas dos Moluscos desde sempre fascinou os homens, sendo bem conhecido que muitas tribos primitivas as utilizaram como adorno em colares, toucados, etc.
Neste aspeto, deve salientar-se a utilização ancestral, nas ilhas Fiji, da concha da Cypraea aurantium, usada pelos chefes, enfiada num fio pendurado ao pescoço, como símbolo do seu estatuto privilegiado.
É também bem conhecida a importância da chamada púrpura tíria ou púrpura imperial, tinta natural de cor vermelha arroxeada, criada pelos antigos fenícios. De grande valor, na Antiguidade, esse corante natural era segregado por diversas espécies das famílias Muricidae e Thaididae, como o Bolinus brandaris, o Hexaplex trunculus e a Stramonita haemastoma. A extração da tinta envolvia dezenas de milhares de búzios e muito trabalho.
É de assinalar que, em diversas regiões do Mundo, nomeadamente na África e na Ásia, pequenas conchas de diversas espécies foram também utilizadas como moedas, dada a sua durabilidade, portabilidade e dificuldade na contrafação.
Para além de servirem de adorno pessoal, as conchas estão ligadas ao mundo das artes, tendo sido desde sempre tema inspirador de grandes artistas, especialmente em representações das chamadas naturezas-mortas. O próprio Rembrandt (1606-1669) deixou uma bela gravura de uma concha, no caso um Conus marmoreus.
Salientemos dois casos especiais: a partir do século XVI, a concha do Nautilus pompilius, sem a camada exterior e polida de forma a fazer realçar a camada subjacente, a madrepérola, foi muito utilizada na confeção de taças destinadas a ornamentação ou a ocasiões de especial cerimónia; por sua vez, cabe aqui uma referência às bem conhecidas pérolas, de forma geralmente esférica, produzidas por alguns Bivalves, em particular algumas espécies de ostras, em reação a corpos estranhos que invadem os seus organismos, como vermes ou grãos de areia.
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Foi essencialmente a partir de meados do século XV, com o impulso fornecido pelas viagens ultramarinas dos europeus, que mais se desenvolveu o interesse pelas peças de História Natural, com relevo para as conchas, trazidas das regiões tropicais e que muitos entusiastas começaram a acrescentar aos seus gabinetes de curiosidades, até aí principalmente preenchidos por obras de arte, moedas, medalhas, etc.
Nessa área distinguiram-se principalmente os colecionadores dos Países Baixos, da Alemanha, da França, da Grã-Bretanha, etc.
Pode datar-se o início da moderna Malacologia na segunda metade do século XVII, com os trabalhos do jesuíta italiano Philippo Buonanni, domédico inglês Martin Lister e do botânico alemão Georg Eberhard Rumphius, todos eles direta ou indiretamente responsáveis por importantes livros sobre o assunto.
À época, para além das coleções que se encontravam nas mãos dos naturalistas, outras eram reunidas por membros da mais alta sociedade, que viam na posse de tais preciosidades uma afirmação do seu elevado estatuto social e económico. Em particular, diversas casas reais europeias possuíam importantes coleções de conchas, sendo aqui de referir a do rei de Portugal D. João V (1689-1750), que incluía diversas raridades.
A partir de meados do século XX, registou-se um aumento extraordinário do interesse pelas coleções de conchas, multiplicando-se o número de colecionadores americanos e europeus, mas também australianos, sul-africanos, japoneses, etc. As conchas começaram a ser metódica e ardentemente procuradas, beneficiando de técnicas de recolha cada vez mais sofisticadas, incluindo mergulho, dragagem e até, mais recentemente, a utilização de pequenos submarinos controlados à distância, usualmente designados por ROVs (remotely operated vehicles).
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Nos nossos dias, todos os ecossistemas na Terra, todos os seres vivos, estão, infelizmente, ameaçados por problemas de conservação, a grande maioria dos quais provocados por mão humana. São sobejamente conhecidas as consequências do aquecimento global e da poluição das águas.
Ambos os fatores destroem os habitats – nomeadamente os recifes de coral, causando o desaparecimento das espécies lá existentes. A pesca de arrasto, por sua vez, destrói os fundos marinhos, revolvendo pedras e transformando os leitos oceânicos em completos desertos.
Há ainda outros fatores de destruição menos falados. A construção de estâncias turísticas à beira-mar, por exemplo, pode acarretar a destruição de habitats vizinhos, conduzindo, no limite, à extinção total de espécies de distribuição geográfica muito restrita.
Urge, pois, tomar medidas apropriadas para a proteção das espécies. Os colecionadores, aprofundando o conhecimento sobre a biodiversidade e as áreas de distribuição de cada espécie, desempenham aí um papel fundamental, sendo certo que só se pode proteger aquilo que se conhece.
Autor: António Monteiro







