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«Viajando» em Kitesurf

João Cabeçadas, confrade da CMP-LNP

10/07/2026

Tive a sorte de o meu pai me ter ensinado, no Rio Sado, a respeitar e gostar do mar. E a gostar de velejar. Aprendi tão bem a lição que ainda hoje gosto. E muito!!

O vento levou-me a querer velejar para além do Rio Sado e o mar abriu-me literalmente um oceano de possibilidades. Fiz rumo ao alto-mar e a competição à vela tornou-se para mim a minha vertente de maior relevo: as 3 regatas de volta ao mundo, as 5 participações na America’s Cup e tantas outras regatas oceânicas, costeiras e locais têm sido a minha profissão nos últimos 39 anos.

Felizmente a vela vai muito além das regatas. E numa outra vertente, desde 1979 complementei a vela “tradicional” com o windsurf, que me abriu um leque de possibilidades de “exploração”, levando-me onde o barco à vela não conseguia chegar. E então apareceu na vela a vertente kitesurf. A qual abracei desde 2001. O kitesurf permite-me fazer navegações ainda mais além.

Navegar numa prancha de surf, tracionado por um kite, abriu o leque de possibilidades: navegar em alto mar, surfar a rebentação ou explorar águas rasas – necessitando apenas 15cm de profundidade para navegar.

O facto de o equipamento ser fácil de transportar permite transportar a pé, por terra, não só todo o equipamento para navegar, mas também os essenciais para me alimentar e pernoitar. E navegando posso levar numa mochila esses essenciais.

Porque importa “transportar o equipamento a pé, por terra”? É que esta característica permite-me viajar em qualquer transporte público ou caminhar quilómetros com o equipamento, para me lançar em kitesurf de onde quiser. Posso percorrer litorais onde não ousaria passar em outro tipo de “embarcação”. E voltar a terra a meu belo prazer.

O modo de viajar que escolhi assemelha-se ao “campismo-de-mochila-às-costas”, mas por mar.
Dá-me a liberdade de parar e continuar onde e quando quiser. Preciso apenas de encontrar a cada 24 a 48 horas onde reabastecer mantimentos.

Posso “kitesurfar” centenas de quilómetros de litoral sempre de vento em popa porque regressarei para barlavento em comboio ou autocarro. Num dia curto posso percorrer uns 40Km, bem como num dia longo posso percorrer uns 150Km.

A costa Oeste da Austrália ou como prefiro, o Nordeste do Brasil, são litorais com ventos constantes em intensidade e direção. Permitem encadear dias navegando sempre em mareação folgada. A costa Oeste da Austrália tem no Verão uma brisa térmica que se repete todos os dias. E o Nordeste do Brasil tem os ventos Alíseos.

A consistência destes ventos permite-me usar um único kite todos os dias, adequado a essa intensidade de vento. Navego transportando na mochila apenas a bomba de ar para encher o kite, rede (com mosquiteiro) para dormir entre dois coqueiros, calção e T-shirt secos, chinelos, água, comida, protetor solar, um kit para reparar o kite e as suas linhas, passaporte, 2 telemóveis, carregador solar e a forra da prancha. A forra protege a prancha nos transportes em autocarro e serve-me de saco de dormir quando durmo na rede. Tenho feito muitos trajetos entre 3 e 8 dias. O mais longo foram 652Km de litoral, em 17 dias, passando por vezes alguns dias no mesmo lugar. Conheci gentes e costumes, fiz amigos, passei dias com pescadores, pescando de noite com eles e descansando de dia… É a maneira de viajar mais enriquecedora que conheço e não vejo a hora de me lançar novamente ao mar em kitesurf.

17 dias entre Cumbuco (Fortaleza) e Travosa (no final dos Lençóis do Maranhão)

3 participações na Whitbread Round the World Race incluindo uma vitória. E 5 participações na America’s Cup incluindo 2 vitórias.

Autor: João Cabeçadas, confrade da CMP-LNP