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08/07/2025

«Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo…»
Fernando Pessoa
Desorientação.
Estamos desorientados.
Portugal está desorientado, o Mundo está desorientado — tão desorientado, Portugal como o Mundo, que não é certo já saber-se onde fica o Oriente ou se ainda há Oriente…
… e perdido o Oriente, enlouquecemos: nós, Portugal, talvez o próprio Mundo…
Partimos outrora, com plena consciência disso, em busca do Oriente.
Sim, do Oriente «donde vem tudo, o dia e a fé», do Oriente «pomposo fanático e quente, excessivo, que eu nunca verei, […] tudo o que nós não temos, tudo o que nós não somos, onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva, onde Deus talvez exista realmente, mandando tudo»…
Sim, talvez também por isso mesmo não haja palavra tão genuinamente portuguesa, a par de Saudade, como Orientação: a plena consciência, nunca perdida, da finalidade de ligar pelo Mar, decisivamente, Oriente e Ocidente — pelo Mar, ou as águas, sobre quais pairava já o Espírito no princípio dos tempos…
Inspiração?
Com certeza, porque algo era já então tão evidente quanto é, ou deveria sê-lo, hoje: a independência de Portugal não se explica e menos ainda se justifica, ou alguma vez se justificou, por razões de índole puramente natural, ou seja, por razões de ordem eminentemente geográfica, seja em imediatos termos de Geografia Física, Geografia Humana, Geografia Económica ou Geografia Política, se é legítimo assim o afirmar, mas por razões de muito diversa ordem como, de algum modo, o reconhecia já Mendes Correia no seu estudo sobre as Raízes de Portugal: «Se um Estado como o nosso dependesse apenas da vontade humana, desprovida de raízes na terra e no sangue deste povo, bem contingente seria o seu destino. Se a vontade individual sofre todos os riscos da liberdade, podendo enfraquecer ou orientar-se em sentidos vários, a vontade colectiva não é também perseverante, não se traduz em realizações definitivas, se não a anima uma energia de continuidade secular. Essa energia só pode vir de Deus e das forças milenárias do gérmen e da terra», e mesmo uma tão incansável prosélita alma positivista como Teófilo Braga, primeiro Presidente da República Portuguesa, e a quem o domínio na Universidade Portuguesa, por décadas, do mesmo positivismo quase tudo deve, não sem também as bem mais funestas consequências a todos bem patente, reconhecendo, «positivamente» a intrínseca individualidade étnica e espiritual dos Portugueses, não deixava de vaticinar, ainda em 1908, a este singular povo, o cometimento de «um alto destino histórico», ou seja, como outrora, nos idos dos Descobrimentos, de «directa acção sobre os destinos da Civilização».
Por outras palavras, se Portugal veio a ser Portugal como veio a sê-lo, não veio a sê-lo senão em ordem à realização de uma superior finalidade que sempre foi, como não poderia nunca, como não pode deixar de ser a causa primeira de tudo quanto veio a ser, de tudo quanto é, de tudo quanto ainda é para ser.
Se Camões, um Fiel do Amor, como Dante, ainda sabia as razões da nossa ida ao Oriente, viagem de iniciação, como António Telmo tão magnificamente expõe no Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, para «por valorosos feitos o homem da lei da morte se ir libertando», depois de Alcácer Quibir e de 1580, ou seja, da reunião das Coroas de Portugal e Castela por Filipe II, afirmando, sobre o nosso Reino, diz-se, «ter comprado, herdado e, se dúvidas houvesse, conquistado», o que sendo aparentemente apócrifo não deixa de ser todavia um bom dito, embora indiscutível facto haja sido a formação de um «Império onde o sol nunca se põe», expressão que Frei José de Siguenza, o grande historiador dos Jerónimos, nos diz, na sua pequena obra «Como viveu e morreu Filipe II», ter sido cunhada por um Português na Corte em Lisboa, sem no entanto identificar exactamente quem, o que se compreende porque, se o dito era igualmente excelente, digno de um Filipe II, nós tínhamos, entretanto, perdido o Oriente, ficado desorientados, como ainda hoje estamos.
Poderemos, saberemos, voltar a recuperar a recta Orientação?
Não sabemos…
Há um célebre ditado chinês que hoje todos gostam muito de citar: «quando o sábio aponta para a lua os tolos olham para o dedo».
Mutatis mutandis, a questão actualmente talvez seja esta: se nos apontam o Mar, para onde olhamos?
Os mais práticos talvez olhem, não sem razão e muito justamente, para a Economia do Mar — afinal, o Mar é o nosso último e primeiro activo de valor incomensurável porque, na verdade, ainda relativamente desconhecido, mas sabendo olhar com olhos de ver e agir consequentemente, com todas as possibilidades que proporciona, sem dúvida que não deixará de cumular de benefícios.
Mas a vida não é apenas negócio que, sendo importante, como não pode deixar de ser, para nós, Portugueses, é um pouco como escrevia Jorge Dias no seu breve, mas luminoso opúsculo Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa: «O Português, muito intimamente, é incapaz de ambicionar para a sua pátria o bem-estar e a prosperidade que, por exemplo, o Suíço conseguiu pelo esforço pertinaz e constante. É certo que o Português se envergonha perante um suíço, pelo elevado nível de vida que aquele soube conquistar, mas se fosse ele o suíço, envergonhar-se-ia da mesma maneira, por ter conseguido um bem-estar sem glória».
A par disso, talvez os de mente mais teórico-política olhem para o Mar e compreendam ainda a decisiva importância e real valor do Mar em termos Geopolíticos e Geoestratégicos para não subsumirmos, inertes, ao mando de Bruxelas.
Porque é o Mar que nos liga ao Mundo e ainda nos dá a possibilidade de autónoma e verdadeira afirmação de efectiva soberania, real independência e verdadeira liberdade — assim o saibamos compreender e actuar consequentemente.
Sim, talvez não pareça muito e se afigure até paradoxal, mas o nosso Mar vale também pela capacidade que tivermos de o proteger de terceiros —e tanto maior será o seu valor quanto maior a nossa capacidade de o protegermos e possibilidade que tivermos de o negar a terceiros.
Basta?
Talvez não, talvez para as mais «Poiéticas» Almas Lusas, no verdadeiro sentido da antiga expressão grega, Almas Salgadas, sempre imaginando e em busca de génio e aventura, de «outras Índias que não vêm nos mapas»…
Talvez as mais «Poiéticas» Almas Lusas, olhando o Mar saibam ainda pressentir o Espírito que paira sobre as águas, e tendo consciência da Pátria Portuguesa, «um ser espiritual», como afirmava Teixeira de Pascoaes, e como o Poeta do Marão, tenham consciência e a correspondente responsabilidade de saberem depender esse «ser espiritual» da vida individual de cada um, do que cada um souber pensar desse mesmo «ser espiritual», da Pátria Portuguesa, da Nação Marítima que Portugal é — e é para ser…
Que as mais «Poiéticas» Almas de Portugal saibam pensar Portugal e, recuperando a orientação, sabendo voltar a olhar Novos Orientes, nos conduzam a uma Nova Renascença Atlântica.
Autor: Gonçalo Magalhães Collaço Director do Jornal da Economia do Mar, Confrade da CMP-LNP











