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Mapas, Navios e Estratégia: a Sociedade Real Marítima no Contexto da Renovação da Armada Portuguesa no Final do Século XVIII

Cmdt. Bruno Gonçalves Neves Professor de História Naval da Escola Naval, Confrade da CMP-LNP

08/04/2025

No final do século XVIII, durante o reinado de D. Maria I, a Armada Portuguesa passou por um importante processo de modernização. Num contexto de acesa competição entre potências navais europeias, o Secretário de Estado da Marinha e Domínios Ultramarinos, D. Martinho de Melo e Castro, promoveu a renovação da esquadra com a construção de 18 novos navios em apenas sete anos. Paralelamente, iniciou um conjunto de importantes reformas estruturais, incluindo a criação de infraestruturas como o Arsenal da Baía (Brasil) e a Real Fábrica de Cordoaria, Hospital de Marinha e Real Observatório de Marinha na metrópole, enquanto eram reorganizadas outras já existentes, como o Arsenal de Marinha em Lisboa e o Arsenal de Goa.

No entanto, a produção cartográfica portuguesa, essencial para a navegação, encontrava-se desatualizada, obrigando os navios nacionais, mercantes e militares, a recorrer frequentemente a cartas estrangeiras. Tornava-se assim evidente a necessidade de se tomarem medidas concretas para a resolução deste atraso, o que irá acontecer sob iniciativa de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, sucessor de Melo e Castro.

Por alvará de D. Maria I de 30 de junho de 1798, foi então criada a Sociedade Real Marítima, Militar e Geográfica, para o Desenho, Gravura e Impressão das Cartas Hidrográficas, Geográficas e Militares. Tão extensa designação demonstra a amplitude dos campos do saber e da aplicação da sua produção futura. Para o efeito, era composta por oficiais da Marinha e do Exército, professores da Academia Real de Marinha, da Academia Militar e da Universidade de Coimbra, bem como por especialistas em matemática, desenho, gravura e impressão.

Retrato de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, Conde de Linhares; gravura litográfica de José Maria Caggiani. — Biblioteca Nacional de Portugal

Presidida honorariamente pelos quatro Ministros de Estado, reunia-se no Arsenal de Lisboa e era financiada pela Junta da Fazenda da Marinha, funcionando como um centro multidisciplinar e interministerial, voltado para a produção cartográfica e para o avanço da ciência náutica, indispensáveis para manutenção e segurança das navegações portuguesas e ligação aos territórios ultramarinos.

A Sociedade Real Marítima, designação abreviada pela qual ficou conhecida, integrava-se numa tendência internacional que visava aperfeiçoar a navegação e garantir vantagem estratégica face aos concorrentes, quer fosse através da identificação de novas rotas, quer através da maior segurança daquelas já praticadas. Acompanha, deste modo, a criação de organizações homólogas entre as principais potências marítimas europeias, como a Dinamarca, França, Grã-Bretanha e Espanha, que apoiavam, com o seu saber técnico e científico, os projetos exploração e expansão dos respetivos países.

O objetivo principal da Sociedade Real Marítima consistia em realizar levantamentos hidrográficos e fornecer cartas precisas para as navegações militares e comerciais. Além disso, dedicava-se ao fomento da produção de instrumentos náuticos em território nacional, pugnando pelo particular rigor com que os mesmos deveriam ser produzidos e aferidos, chegando a contratar especialistas estrangeiros para o efeito, como Jacob Bernard Haas, que estabeleceu uma oficina de instrumentos náuticos e matemáticos na Fábrica Nacional de Cordoaria.

Carta marítima do Cabo de S. Vicente athé a Bahia de Lagos com as enseadas que a costa e rochedos fazem, conforme a configuração, e posição da mesma costa / desenhada e levantada por Balthazar Azevedo de Coutinho, capitão do Real Corpo de Engenheiros, Oferecida à Sociedade Real Marítima Militar e Geografica deste Reyno. [entre 1798 e 1807] — Biblioteca Nacional de Portugal

Nos primeiros anos, a Sociedade conseguiu resultados significativos, tendo um papel crucial na atualização da cartografia nacional. No entanto, em 1803, D. Rodrigo de Sousa Coutinho foi afastado por intrigas políticas, e, poucos anos depois, a invasão das forças napoleónicas e a transferência da Corte para o Brasil ditaram o fim prematuro desta instituição. Os seus bens foram dispersos e as suas funções absorvidas por novas organizações, no Brasil e em Portugal.

Apesar da sua curta existência, a Sociedade Real Marítima marcou o início da sistematização da hidrografia e da cartografia, náutica e terrestre, em Portugal, constituindo-se como a génese de diversas instituições que viriam a consolidar esses campos nos séculos seguintes e que perduram até aos nossos dias.

Autor: Cmdt. Bruno Gonçalves Neves Professor de História Naval da Escola Naval, Confrade da CMP-LNP