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Atribulada aventura numa Chris-Craft de Cascais à Irlanda ou a Lei de Murphy aplicada aos Acontecimentos de Mar

Cap. M.M. João Francisco dos Reis Ferreira, Confrade Honorário da CMP-LNP

15/02/2026

Cap. I

Decorria o mês de agosto de 1976. Saboreava eu uma apreciada “bica” com alguns amigos na esplanada do café Nicola, na Figueira da Foz, quando, de supetão e de palmada nas costas, levanto os olhos e vislumbro o meu saudoso amigo (que Deus guarda), Leonel Oliveira, então gerente da agência de navegação FOZNAVE, na Figueira Da Foz.

Tinha conhecido o Leonel em Luanda, quando ele era caixeiro de mar da Casa Inglesa (Hull & Blyth). Trazia-me então uma desafiante proposta, munido da certeza de que eu a aceitaria, conhecendo ele bem a minha natural idiossincrasia.

Uma agência de navegação de Lisboa, a Willis, andava à procura de um náutico para pilotar uma Chris-Craft, que pertencia a um armador de navios (disposal ships), de Cascais para Cork, na Irlanda. A Chris-Craft, de “goelas abertas”, ultrapassava com facilidade os 25 nós, em mar chão. Era provida de dois motores a gasolina “super” e pode dizer-se que “bebia bem”: de Cascais a Leixões, à velocidade média de 12 nós, “bebeu” 1000 litros de gasolina “super”, que nesse tempo era vendida a dezoito escudos o litro. Como já disse um famoso senhor da nossa praça “é só fazer as contas”.

A proposta parecia-me aliciante, embora eu me preparasse para passar uns agradáveis dias de férias na praia da Claridade, revivendo os excelentes verões da minha juventude passados naquela magnifica praia de água gelada. Era na altura descomprometido e com queda para gozar bem a vida, sem compromissos matrimoniais ou como bem se diz “solteiro e bom rapaz”, e o sangue quente da juventude obliterava a gélida água, bem compensada com os cálidos bailes que se lhe seguiam no Casino Peninsular, muito concorrido de miúdas das melhores procedências e com esperança de conseguir um bom casamento. Eram os saudosos e quase já esquecidos bailes, de obrigatório fato e gravata, onde se dançava ao som de músicas românticas e onde era permitido o cheek-to-cheek esse consentido “encosta a tua cabecinha no meu ombro”, desde que a chaperone de serviço não o visse.

Tinham decorrido mais de 15 anos desde o último Verão que passara em Buarcos, lugar onde nasci e tinha residência, mas as esporádicas visitas à minha Terra Natal aconteciam sempre entre o regresso de Nova Iorque para Luanda, quando passava algumas semanas com a minha então família nova-iorquina.

Mas regressando à palmada nas costas e à arrojada proposta, esta era nada menos do que seguir logo que pudesse para Lisboa para contactar o referido armador, que estava a residir próximo do Casino do Estoril, e fazer um contrato para levar a dita embarcação para Cork. Acontece que a nave fora comprada em Nice e manejada por uma tripulação inglesa, que tinha levado um mês de Nice a Cascais, com umas trafulhices pelo meio, incluindo o desaparecimento de um pneumático e um motor fora de borda, que existiam como palamenta.
O armador irlandês, casado com uma senhora sobrinha-neta de uma figura icónica da política inglesa dos anos 40, era dotado de um carácter especial. Tinha ficado órfão aos 14 anos e, no dia do falecimento da mãe, quando o padre tentava confortá-lo com o argumento de que a mãe tinha partido porque Deus precisava dela, a resposta do jovem de 14 anos foi para além de certeira: “E eu, Sr. Padre, não preciso também da minha mãe?”.

Colocado pelo pai num colégio interno em Londres, foi sol de pouca dura a sua permanência no internato, de onde rapidamente fugiu. A sua rota de fuga foi para as docas de Londres, introduzindo-se à socapa num navio, onde seguiu como “stowaway” até New York. Ali desembarcado, procurou integrar-se na comunidade irlandesa, que lhe deu guarida, mas o seu espírito irrequieto fê-lo saltar de emprego em emprego. Tendo trabalhado uma temporada numa estação meteorológica na baía de Hudson, daqui seguiu-se-lhe uma longa viagem até à América Central e do Sul.

De regresso para Norte, instalou-se em Havana, tendo decidido ir lutar para a Sierra Maestra, ao lado de Fidel Castro. Após a entrada das forças revolucionárias em Havana, foi-lhe prometido um lugar de relevo na administração de Cuba, que recusou.

Foi em Havana que conheceu um senhor muito rico, que tinha um enorme baú cheio de ouro, diamantes e dólares americanos e que gratificaria com 100.000 “US dollars” quem o ajudasse a transportar o baú até aos States. Claro que o futuro armador e então herói da Sierra Maestra não hesitou. Foi a Miami, alugou um iate à vela e voltou a Havana, onde gozava de privilégios, para proceder ao resgate. Pela calada da noite encetou a fuga com o milionário e o dito imprescindível, baú. Chegado à Flórida, a Port Everglades, o FBI não lhe perdoou a sua permanência na Sierra Maestra: herói ou não, a verdade é que constava da Lista Negra da polícia federal e foi compulsoriamente “devolvido” à Irlanda.

Chegado à Irlanda, o agora “boss”, de seu nome J.C., munido com o montante proveniente do resgate dos teres e haveres do milionário cubano, comprou um pequeno navio-tanque para ser empregue no agora dado como criminoso (mas que era na altura permitido) transporte de resíduos poluentes das indústrias químicas e lançá-los ao largo da costa da Irlanda. Num ápice passou a armador de quatro “disposal ships” a uma faustosa vida de milionário.

Cap.II

Estando já apresentado o senhor “boss”, passamos agora à narrativa de uma viagem onde “qualquer coisa que poderia ocorrer mal, ocorreu mal, no pior momento possível”, cumprindo na íntegra o epigrama da Lei de Murphy.

Partimos de Cascais pelas 1700 horas no dia 04 de agosto de 1976, com destino a Cork, na Irlanda, e com escalas previstas à medida em que íamos ter necessidade de abastecimento de combustível. Tendo em conta o elevado grau de “sede” da embarcação, já explicada, previa naturalmente algumas boas escalas.

Debaixo de uma forte nortada, que impelia a embarcação a violentos saltos dentro de água, fomos ajustando a velocidade ao mar e doseando sabiamente o combustível. Acabámos por chegar a Leixões no limite da autonomia, porque as borras acumuladas nos filtros levaram à paragem de um dos motores.

A tripulação, além deste vosso narrador, era constituída pelo “Boss” e um motorista naval, natural de Buarcos e já falecido, que foi meu colega na instrução primária e tinha por nome Manuel Marques. Nas pequenas comunidades todos são conhecidos por um nickname (assim mesmo em inglês, pois significava sempre mais do que uma vulgar alcunha). No caso do Manuel, saudoso amigo, era conhecido por Manuel Samagaio. Eu, embora também natural de Buarcos, era uma excepção e não tinha nickname, porque o meu nome só por si já soava a uma bela alcunha: todos me conheciam e chamavam por Quim Saltão.

Ora acontece que o senhor “boss” não deve ter enjoado o suficiente na aventura prévia e insistia que de Viveiros soltássemos rumo para Brest, onde um deputado da Irlanda, seu amigo, esperava por nós para seguir para Cork.

Difícil mesmo foi convencer o senhor J.C. que a embarcação não tinha autonomia suficiente para atravessar a Biscaia e que não era possível levar alguns tambores de reserva, como ele ainda resolveu aventar, porque a entrada para abastecer os tanques era feita através do convés, sujeito a embarque de água e, portanto, haver contaminação do combustível.

Depois de alguma persistente e “douta” catequização, finalmente consegui convencer o “boss” a adoptar a minha doutrina, que consistia em escalar os portos onde fosse possível o abastecimento de combustível, porque o “burro” em que navegávamos bebia mais do que ele próprio conseguia “carregar”.

Seguimos então para Santander com mar chão. Pelas 04:00 horas, já com Santander à vista, um estrondo vindo de estibordo (EB), junto à hélice, seguido de vibração, obrigou-me a parar imediatamente o motor de EB.

Chegados a Santander procurámos um mergulhador para inspeccionar o casco, o que não foi tarefa fácil porque os mergulhadores disponíveis andavam na apanha do sargaço para a indústria farmacêutica. À tarde lá apareceu um mergulhador que, depois de inspeccionar o casco, diagnosticou tudo normal, com excepção das palhetas da hélice de EB, que estavam dobradas, e o veio parecia também afectado. Só a inspecção custou 3000 pesetas.

A embarcação foi encalhada no plano inclinado da doca de pesca para se proceder à reparação. Em princípio, tanto a hélice como o veio tinham de ir para Bilbao, por não haver em Santander quem reparasse a avaria. A situação complicava-se porque havia greve dos transportes, tornando impossível transportar o veio e a hélice. Com a hábil intervenção do motorista e uma outra oficina que nos foi indicada, foi realizada com êxito a reparação pretendida. Depois da montagem da hélice e do veio procedeu-se à descida da embarcação. Mas como a viagem seguia a Lei de Murphy, quando já estávamos com parte das hélices mergulhadas outro imprevisto sucedeu: o cabo de aço que suportava o berço de lançamento esfiapou-se junto ao sarilho, impedindo a descida da embarcação. Solicitei a ajuda graciosa de uma traineira, que estava a chegar ao local, para nos dar um puxão. Auxílio solicitamente prestado porém quando liguei os motores para ajudar a entrada na água ouvi mais um barulho, acompanhado com trepidação, vindo das hélices, o que me obrigou a parar novamente os motores.

Felizmente desta vez não houve problemas. Simplesmente os veios ainda não estavam bem apertados à caixa redutora dos motores e eu não tinha sido avisado. Alinhados os veios, hibernámos mais uns dias em Santander devido ao mau tempo.
Na madrugada seguinte acordei ao som de uma grande algazarra dos meus vizinhos nos iates atracados de braço dado numa fila de piano, sendo o último de fora a nossa nave. O motivo de tanta confusão e alarido era uma tormenta, tipo pirajá, que lançou o caos entre a marinhagem.

Lembro-me da destreza de umas marinheiras francesas de uma embarcação que estava atracada ao nosso iate (não a “nosotros”, esclareça-se!), manejando de biquíni e impermeável, e que as indecorosas rajadas de vento teimavam em revoltear os trajes e mostrar as pudendas partes das galesas. Num frenesim impressionante foram reforçados os cabos de amarração e com o prestimoso auxílio da nossa embarcação foram os iates, de braço dado, levados a reboque para os seus primitivos postos de amarração.
Após a faina terminar, juntámos no nosso iate francesas e suecas, bebendo chocolate quente e o saboroso café acompanhado por uns cakes de manteiga dinamarqueses. Os encontros começaram a ser frequentes e pela manhã, a bordo da nossa embarcação, eram servidas saborosas panquecas, diziam elas as marinheiras, regadas com Maple Syrup (Xarope de ácer). O pirajá foi motivo para uma franca amizade e a estada prolongou-se por mais de uma semana, com demorados jantares e finais de noite felizes. Houve até alturas em que implorámos aos deuses Éolo e Poseidon que continuassem a enviar vento forte e mar agitado, para prolongar a nossa estada em Santander. Para fim da nossa inesperada amizade e diversão, eis que passados uns dias esse tal deus Éolo (verdadeiro desmancha-prazeres) guardou o vento no saco de couro e a dor de cabeça de Hália ou Anfitrite alegadamente terá passado, o que levou o outro deus, o Poseidon dos mares e do nosso descontentamento, a acalmar a sua fúria. E pronto, o tempo amainou um pouco contra nossa vontade.

Cap. III

Prosseguimos para La Rochelle. Quando navegávamos em frente à foz do rio Gironde, com o presságio do regresso de mau tempo, indicado por nuvens muito carregadas e a intensidade do vento a aumentar, arribámos a Royan, na margem direita do rio Gironde.
Ingloriamente, neste porto não havia maneira de abastecer. Embora ainda tivéssemos combustível, decidimos seguir para La Rochelle logo que o as condições de tempo permitissem.

A pressa do J.C. para sair (que era admissível, não só porque tinha de pagar salários e alimentar a tripulação e tratar dos seus negócios), estava sempre a pressionar a saída da embarcação, mesmo havendo agravamento das condições atmosféricas.
Apesar da agitação de mar e a maré de vazante (que eu acintosamente aproveitei para convencer o “boss”), lá resolvi sair, mas quando nos aproximámos da barra o cenário era bem pior do que tinha imaginado. A ondulação era de tal forma fortemente cavada que até eu me assustei. Pondo tudo a EB e uma máquina a vante e a outra a ré, demos uma volta de 180 graus, num ápice, e voltámos para Royan. O herói da Sierra Maestra estava pálido e tremia de tal monta que até eu me arrependi da proeza mas também não sei como estava eu de fácies, porque não tinha um espelho ao pé. Este episódio parece ter servido para convencer definitivamente o J.C. de que “Nobody is perfect, except the Captain”.

O homem era difícil de convencer e compreender e só com trabalhos práticos (dando flagrantes exemplos) se podiam vincar e vingar as nossas considerações.

Logo que o tempo melhorou seguimos para La Rochelle. Depois de abastecermos rumámos para Brest, correndo desta vez a viagem sem percalços. De Brest soltámos rumo para as ilhas Scillly, onde chegámos pelas 05:00 horas. Sem RADAR nem cartas de navegação do local, aguardámos pela alva para praticar a entrada com segurança, praticando um canal balizado. Quando nos encontrávamos a meio do canal, mais um acontecimento de mar: uma vibração no veio de EB com redução das rotações. Prosseguimos a viagem até ao cais, só com o motor de bombordo (BB).

Procurámos de novo um mergulhador para verificar o evento. Desta vez era um pedaço de retenida de nylon, dessas que se atiram para a água, fazendo do Mar caixote de lixo, que se enrolou no veio junto ao bucim. A operação do mergulhador custou 80 libras esterlinas e ainda lhe emprestei a minha faca para cortar a retenida. Sim, a minha faca! Porque marinheiro sem faca é como meretriz sem cama…

A agitação atmosférica esteve quase sempre presente nesta viagem, como se a perversidade do Universo quisesse que tudo desse errado. Isto pode ser interpretado como um negativismo puro e simples, mas também como um alerta para se tomar sempre todas as precauções possíveis quando se trabalha numa actividade como é a vida do Mar.

Permanecemos três dias em Hug Town, St. Mary´s, nas Ilhas de Scillly, aguardando melhoria de tempo. Consultada a carta de tempo num Pub, onde se reuniam os navegantes daquelas paragens, verificámos que havia uma janela de oportunidade, com alguma agitação, mas com uma possibilidade de largarmos para Cork, na Irlanda.

A meio da viagem voltou o vento e a agitação marítima, de tal modo que pensei no pior. Felizmente a Divina Providência estava connosco e conseguimos entrar em Cork. Quando prosseguíamos no canal de acesso à Marina de Cork os dois motores pararam, devido ao entupimento dos filtros. Tivemos de fundear e solicitar reboque de uma lancha a motor ao serviço da Marina. Era um sábado e pernoitámos num Hotel ali existente. Sim… a sério, mas ainda não pára por aqui.

No Domingo à hora do almoço veio o “boss”, esposa e filha, de 12 anos, para almoçarmos juntos, mas a traquinice da filha, ao escorregar pelo corrimão de uma escada existente no hall do hotel, originou-lhe uma queda e teve de ir para o hospital, tendo-se verificado, depois, que os ferimentos não foram de grande monta.

Na segunda-feira de manhã, quando fomos a bordo com as autoridades para dar entrada à embarcação, deparámos com um calado inusitado, que não correspondia à carga das caixas de whiskey, gin e rum da garrafeira do “boss”, que durante a viagem bebia a bom beber, nada menos do que uma garrafa por dia. Só os motores da embarcação é que competiam com ele na devida proporção.
Depois de inspeccionado o porão, com as caixas a flutuar, verifiquei existir uma fissura no encolamento da proa a BB, que deduzi ter sido originada aquando do encalhe no plano inclinado em Santander. O berço de lançamento não teria sido ajustado à baliza da embarcação, ficando ao lado, resultando um esmagamento do casco liso de madeira.

Durante a viagem, a elevação da proa e a bomba de esgoto ligada ao motor não permitiram o acúmulo de água que eventualmente entrava. Com a embarcação parada, a água que porventura acumulasse seria esgotada por uma bomba (bildge pump) ligada às baterias, que actuava logo que a água atingisse um determinado nível (sistema bóia de autoclismo) mas, como não podia deixar de ser, a bateria tinha sulfatado!!!

Em 1877 o engenheiro Alfred Holt, numa reunião de engenheiros em Londres, para falarem sobre navios a vapor proferiu a seguinte lei epigramática: “Verifica-se que qualquer coisa que pode dar errado no mar, geralmente dá errado, mais cedo ou mais tarde”. E assim se acabavam de unir, de braço-dado, duas belas Leis: a de Murphy e a de Holt.

No final, o “boss” estava renitente em pagar o nosso atribulado trabalho, mas a sua honrada esposa, que era uma Lady, chegou-se à frente e pagou integralmente tudo o que era devido.

Durante a viagem, o “boss”, depois de beber sozinho uma garrafa de whiskey ou gin, contava-nos as histórias da sua atribulada vida e uma delas dizia que: “se não fosse um homem honesto teria atirado ao mar o milionário e teria ficado com o baú e seu recheio”.
O Manel Samagaio comentava comigo, sempre que havia um azar, que era, alegadamente, a alma do milionário que se estava a vingar.
Parafraseando o Manuel Samagaio, com um toque de salero à mistura: não acredito em almas vingativas, pero que las hay, las hay…
Terminava assim uma epopeia onde tudo o que de errado podia acontecer, aconteceu e religiosos ou não ficámos sempre com a sensação que foi realmente graças à Divina Providência que salvámos o nosso corpo, pois pelo rumo dos acontecimentos nem a alma se nos aproveitaria.
De Cork viajei de combóio para Dublin, onde permaneci três dias, e dali para Londres, onde gozei uma divertida semana de férias para depois regressar a Lisboa e preparar-me para novas aventuras marítimas.

Autor: Cap. M.M. João Francisco dos Reis Ferreira, Confrade Honorário da CMP-LNP